O MAR E A PRAIA
Análise
Morfodinâmica das Praias
A graduando do Curso de Oceanologia da
Fundação Universidade do Rio Grande, Fernanda Genael
Koefel, em sua introdução monográfica sobre a
"Morfodinâmica de Praias Arenosas Oceânicas: Uma
Revisão Bibliográfica" considera que as praias
arenosas oceânicas encontram-se entre os campos mais
negligenciados do estudo científico dos ambientes
costeiros, e ainda cita Komar (1976) que faz a seguinte
observação: "aproximadamente dois terços da
população mundial vivem numa estreita faixa adjacente
à costa, tendo sido as praias e estuários os primeiros
ambientes a sofrerem diretamente o impacto do crescimento
demográfico mundial."
No Brasil a costa litorânea tem 9.200
Km, sendo as praias arenosas dominantes em quase toda sua
extensão, exceto no extremo norte do país.
As praias arenosas oceânicas
apresentam-se como sistemas de alta instabilidade, sendo
dinâmicas e sensíveis por estarem sujeitas às
variações dos meios de energia local. Sofrem ainda por
serem retrabalhadas por processos eólicos, biológicos e
hidráulicos. Destacam-se entre estes as ondas geradas pelo vento, as
correntes litorâneas, as oscilações de longo período
e as marés. Como consequência da atuação destas
energias, as praias sofrem mudanças morfológicas e
trocas de sedimentos com regiões adjacentes; atuam ainda
as praias como zonas de tampão, protegendo a costa da
ação direta da energia do oceano, sendo esta sua
principal função ambiental.
PRAIA
Segundo aquela monografia citada, praias são
depósitos de sedimentos arenosos inconsolidados sobre a
zona costeira, dominados principalmente por ondas e
limitados internamente pelos níveis máximos de ação
de ondas de tempestade (ressaca), pelo início da
ocorrência de dunas fixadas ou qualquer outra
alteração fisiográfica brusca, caso existam; e
externamente pelo início da zona de arrebentação (indo
em direção à terra), ponto até o qual os processos
praiais dominam francamente o ambiente.
Na praia distinguem-se as seguintes zonas, segundo a
hidrodinâmica:
- Zona de
Arrebentação ("breaking zone") - é a
porção de praia onde ocorre a quebração das
ondas. A Zona de Arrebentação é a área
compreendida entre a quebração mais distante e
a mais próxima da costa. Pode haver mais de uma
quebração nas praias. Isto ocorre quando há no
ponto de quebra, em geral, a associação de um
banco de areia, paralelo à costa, sendo seguido
por uma vala. O número de
zonas de quebração está, consequentemente,
relacionado com o número de bancos de areia e
valas existentes na praia. E o seu conjunto forma
a zona de arrebentação.
Há teorias, entretanto, que subdividem a zona de
arrebentação em zona de arrebentação e zona
de surfe ("surf zone"). Porém, o
reconhecimento de suas diferenças é tão
difícil na prática que seu estudo traria poucas
implicações na atividade do Guarda-Vidas. Zona de Varrido
("swash zone") - é definida como a
região entre a máxima e a mínima excursão da
onda sobre a face da praia. Logo após a zona de
varrido pode acontecer uma feição deposicional
de sedimentos chamada de berma. Devido às
mudanças do nível da água, a zona de varrido
torna-se seca e molhada alternadamente.
Subambientes
praiais - além das zonas descritas, existem
ainda nas praias os seus subambientes, que são
assim definidos por Fernanda Gemael Hoefel:
- Pós-praia ("backshore") - zona
que se estende do limite superior do
varrido até o início das dunas fixadas
por vegetação ou de qualquer outra
mudança fisiográfica brusca.
Face
praial ("beachface") -
identifica a parte do perfil praial sobre
a qual ocorrem os processos da zona de
varrido.
Praia Média - porção do perfil
sobre o qual ocorrem os processos da zona
de surfe e da zona de arrebentação,
neste trabalho considerados ambos
"zona de arrebentação".
Antepraia ("shoreface") -
porção do perfil praial dominada por
processos de refração, atrito com o
fundo e empolamento
("shoaling"), que se estendem
em direção ao mar, a partir da zona de
arrebentação até o limite máximo da
ação das ondas sobre o fundo.
Cúspides Praiais - ocorrem na
pós-praia e zona de varrido, sendo
idenficados por elevações transversais
à praia, ladeadas por áreas de singela
depressão, que muitas vezes abrigam
correntes de retorno. São bem mais
perceptíveis nas praias de tombo, e
menos nas rasas.
TIPOS DE PRAIAS
Praias geralmente se encaixam em um dos
cinco tipos existentes didaticamente de acordo com a
teoria Australiana e três tipos de acordo com a teoria
acadêmica Brasileira.
Associados a cada tipo de praia estão
perigos característicos. Mudança do tempo e das
condições das ondas pode significar que a praia se move
de um estado para outro no espaço de algumas horas. A
identificação correta dos tipos de praias pode ajudar o
Guarda-Vidas a avaliar os perigos que podem ser
encontrados numa praia determinada, a segurança relativa
de uma praia, e as ações que podem ser necessárias
para proteger os banhistas. A seguir teremos a
classificação das praias conforme seus tipos e perigos,
de acordo com a escola australiana, e depois a
classificação segundo a teoria acadêmica brasileira.
CLASSIFICAÇÃO
DAS PRAIAS
ESCOLA AUSTRALIANA
- Praias Refletivas - praias refletivas se formam
em áreas de ondas baixas. Elas são
características por serem íngremes e rasas,
geralmente compostas por areia grossa e ondas
baixas (cerca de 0,5m de altura). Elas são
geralmente encontradas nas entradas de portos e
estuários e na parte de mais baixa energia de
algumas praias oceânicas.
Estas praias não têm buracos de areias ou zonas
de arrebentação; as ondas passam sem quebrar
até a margem, onde elas colapsam ou sobem na
face da praia.
As ondas baixas em locais mais protegidos de
praias do tipo refletiva típicas geralmente
proporcionam condições de banhos seguras. Estas
praias, contudo, são caracterizadas pelas
relativamente fortes ondas mergulhantes (caixote)
e uma quebração que pode derrubar pessoas. A
ausência de bancos dde areia também significa
águas mais profundas próximas à costa, o que
pode ser um problema para os que não sabem nadar
e para as crianças. Praias de Maré Baixa -
as praias de maré baixa ocorrem onde a areia é
de fina a média e as ondas atingem alturas
médias entre 05, e 1,0 metro. Elas tendem a
ocorrer em direção à mais baixa energia, e nas
extremidades mais protegidas de praias longas em
enseadas moderadamente protegidas, e em locais
mais expostos onde a areia é fina. Praias de
Maré Baixa têm tipicamente uma face de praia
íngreme, com um banco de areia baixo e
inexpressivo que se estende de 20 a 50 metros em
direção ao mar, partindo da face da praia. Esta
plataforma às vezes é exposta na maré baixa,
com ondas quebrando pesado na borda externa do
banco de areia. Na maré alta, as ondas podem
atravessar o banco de areia sem quebrar na face
da praia.
Praias de Maré Baixa são geralmente seguras,
com ondas baixas e uma plataforma rasa; contudo,
sob condições de ondas mais altas, ondas
mergulhantes podem se desenvolver sobre a
plataforma rasa, aumentando muito o risco de
fraturas de coluna e pescoço. Correntes de
retorno fracas e rasas podem também se
desenvolver, o que pode ser um problema para
nadadores fracos e crianças.
Praias de Banco de Areia e Correntes de
Retorno - o tipo de praia com banco de areia e
correntes de retorno é uma das mais comuns.
Ocorre onde a areia é de fina a média e a
média das ondas é de 1,0 a 1,5 metros. Praias
deste tipo são diferentes de praias de maré
baixa por duas razões. A primeira é que a praia
é descontínua ao longo da costa, cortada por
correntes salientes. A segunda, por causa da
alternância de bancos de areia rasos com canais
de correntes de retorno profundos.
Praias de bancos de areia e correntes de retorno
têm uma zona de arrebentação que se alterna ao
longo da costa entre um banco de areia ligado à
face da praia e canais de correntes de retorno
mais profundos. Como resultado a praia é mais
irregular ao longo da linha costeira. As ondas
quebram nos bancos de areia e se movem em
direção á areia sobre a face da praia. A água
então se move para os lados nos canais de
alimentação das correntes de retorno, antes de
voltar para o mar, através dos canais das
correntes como fortes correntes de retorno.
A Praia de Banco de Areia e Corrente de Retorno
é um dos tipos mais perigosos. Os bancos de
areia rasos atraem as pessoas para a
arrebentação, mas muitos banhistas não
percebem que cair para qualquer dos lados é mais
fundo, pois há traiçoeiros canais e correntes
de retorno.
Para os australianos, estas correntes de retorno
são a causa de 96% dos salvamentos. Na maré
baixa, as correntes de retorno são confinadas
nos canais e se tornam mais fortes. Na praia de
maré alta, correntes laterais se tornam o
problema. Bancos de areia e correntes de retorno
podem ser perigosos para todos, exceto para
nadadores bem preparados. Banhistas devem ser
orientados a se banharem no banco de areia, e
guiados para fora dos canais de correntes de
retorno.
Praias de Valas Laterais - praias de valas
laterais são caracterizadas por ondas com 1,5m
de altura ou mais, com um banco de areia
contínuo correndo paralelo à praia de 100 a 150
metros mar adentro, e uma vala de 2 a 3 metros de
largura entre o banco de areia e a praia. As
ondas geralmente quebram no banco de areia, se
refazem (engordam) na vala (depressão) e
colapsam (quebram) na face da praia. As correntes
de retorno geralmente atravessam o banco de areia
entre cada 250 a 500 metros, mas são menos
evidentes que aquelas das praias de banco de
areia e corrente de retorno. Praias de valas
laterais são perigosas. Elas causam a formação
de ondas maiores e têm canais profundos e valas
ocorrendo ao longo de toda a praia.
Estas valas podem formar fortes correntes de
retorno com redemoinhos de areia. Contudo, as
ondas usualmente quebram primeiro no banco de
areia mais dentro do mar, e são menores na face
da praia, o que pode resultar em razoáveis
condições de segurança na praia.
Praias Dissipativas - praias dissipativas
ocorrem somente em praias de altíssima energia,
geralmente depois de períodos em que as ondas
tenham atingido alturas maiores que 2,5 metros.
Areia fina deve ser um dos componentes. Estas
praias são caracterizadas por zonas de
arrebentação muito largas - de 300 a 500 metros
- com dois, ou ocasionalmente, três bancos de
areia, separados por valas, que correm paralelas
à praia. A quebração das ondas começa com
ondas derramantes no banco de areia externo (mar
adentro), as quais reformam (engordam) para
quebrarem de novo e talvez ainda novamente no
banco de areia ou bancos de areias internos (mais
próximos à costa).
Praias Dissipativas são perigosas e só ocorrem
em mar muito grande, de forma que a maioria das
pessoas nem pensam em nadar nelas. As
extremamente altas quebrações na zona de
arrebentação externa são somente para os mais
experientes banhistas, uma vez que ondas grandes
e fortes correntes de retorno tornam difícil a
volta segura à areia. Próximo à areia, o
problema ocorre quando as pessoas são varridas
da face da praia pelas ondas que colapsam na
praia, e em seguida voltam para o mar.
ESCOLA ACADÊMICA BRASILEIRA
- Praias Rasas - são aquelas em que a profundidade
aumenta suavemente à medida em que vai se
distanciando da zona de varrido, isto é, com
pouca inclinação (ou declividade). A zona de
arrebentação normalmente é larga. É comum a
existência de mais de uma quebração, havendo,
neste caso, a presença de valas entre elas, onde
se formam as correntes laterais.
As ondas são, em geral, do tipo deslizante
(derramante), podendo ocorrer também as
mergulhantes (caixotes). São consideradas de
grande perigo por ser difícil o retorno à praia
em condições de mar alto, apesar de geralmente
terem a aparência tranquila, o que pode
transformá-la em traiçoeira. (Exemplos: praias
de Santos e de Praia Grande no litoral do Estado
de São Paulo). Praias Intermediárias - são
aquelas que possuem inclinação média,
ocorrendo sua arrebentação a uma distância
próxima da praia. O relevo do fundo é
caracterizado por bancos de areia irregulares,
onde quebram as ondas, sendo cortados por canais
onde se desenvolvem as correntes de retorno,
muito frequentes neste tipo de praia. Os bancos
de areia são mais visíveis nas marés baixas,
quando também são visíveis os perigosos
buracos. As ondas tendem a crescer nas marés
vazantes. As ondas nestas praias costumam ser
mergulhantes (caixotes), podendo também ser
deslizantes (derramantes). Nestas praias os
grãos de areia costumam ser médios ou
misturados. (Exemplos: praias da Enseada,
Astúrias e Tombo, na cidade de Guarujá no
Litoral do Estado de São Paulo).
Praias de Tombo - são aquelas que possuem
relevo do fundo com grande inclinação,
aumentando a profundidade abruptamente logo após
a zona de varrido. A arrebentação é quase
ausente, podendo eventualmente aumentar o tamanho
das ondas, mas a quebra da onda ocorre sempre na
zona de varrido. A areia é composta de grãos
mais grossos.
Possui, logo após a face da praia, um degrau bem
acentuado, chamado de berma, seguido de um
declive muito mais acentuado ainda. A menos de um
metro da zona de varrido a profundidade é
suficiente para encobrir uma pessoa adulta. Na
pós-praia os cúspides praiais são bem
nítidos. Possuem correntezas de retorno fracas,
mas que são acentuadas próximas a costeiras. Os
riscos a que ela expõe o banhista são a
profundidade, que aumenta abruptamente, e as
ondas, que são predominantemente do tipo
mergulhante (caixote), que, dependendo de sua
potência no dia, pode atingir o banhista com
força a arrastá-lo para o fundo, ainda que ele
esteja na zona de varrido. São ausentes as valas
e os bancos de areia. (Exemplos: praias de
Maranduba e Massaguaçu, em Ubatuba, Litoral de
São Paulo).
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