Este artigo originalmente publicado no
boletim do FBI e condensado agora por seleções e de
muita importância para que aqueles que procuram explicações
para a ação policial no cotidiano das grandes cidades,
possam compreender por que o policial anda armado e
possam ver "os milhares de policiais, homens e
mulheres, lutando e resolvendo problemas difíceis para
preservar nossa sociedade e aquilo que nos é mais caro".
Ao determinar a reprodução deste artigo, recomenda a
todos os comandos que o explore na instrução da tropa,
bem como estimule debates com autoridades locais,
especialmente aqueles que, como o professor, disponham do
tempo que queiram para tomar decisões difíceis. Talvez,
então, possam compreender o policial que é "forçado
a fazer escolhas críticas em questão de segundos (prender
ou não prender, perseguir ou não perseguir), sempre com
a incômoda certeza de que outros, aqueles que tinham
tempo para analisar e pensar, estariam prontos para
julgar e condenar aquilo que fizera ou aquilo que não
tinha feito".
São Paulo, 15 de março de 1975.
Como professor de criminologia, tive problemas durante
algum tempo, devido ao fato de que, como a maioria
daqueles que escrevem livros sobre assuntos policiais, eu
nunca fui policial. Contudo, alguns elementos da
Comunidade Acadêmica Norte-Americana, tal como eu, foram
muitas vezes demasiado precipitados ao apontar erros da
nossa política. Dos incidentes que lemos nos jornais,
formamos imagens estereotipadas, como as do policial
violento, racista, venal ou incorreto. O que não vemos são
os milhares de dedicados agentes da polícia, homens e
mulheres, lutando e resolvemos problemas difíceis para
preservar a nossa sociedade e aquilo que nos é mais caro.
Muitos dos meus alunos tinham sido policiais, e eles várias
vezes apunham às minhas críticas o argumento de que uma
pessoa só poderia compreender o que um agente da polícia
tem de suportar quando também experimentasse ser
policial. Por fim, me decidi a aceitar o repto. Entraria
para a polícia e assim iria testar a exatidão daquilo
que vinha ensinando. Um dos meus alunos (um jovem agente
que gozava licença para frequentar o curso, pertencente
a Delegacia de polícia de Jacksonville, Flórida) me
incitou a entrar em contato com o xerife Dalle Carson e o
vice-xerife D K. Brown e explicar-lhes minha pretenção.
Lutando por um destintivo. Jacksonville me parecia ser o
lugar ideal. Era um porto de mar e um centro industrial
em crescimento acelerado. Ali ocorriam também manifestações
dos maiores problemas sociais que afligem nossos tempos:
crime, delinquência, conflitos raciais, miséria e doenças
mentais. Tinha igualdade a habitual favela e o bairro
reservado aos negros. Sua força policial, composta por
800 elementos, era tida como uma das mais evoluidas dos
Estados Unidas.
esclareci ao xerife Carson e ao vice-xerife Brown de que
pretendia um lugar não como observador, mas como
patrulheiro uniformizado, trabalhando em expediente
integral durante um período de quatro a seis meses. Eles
concordam, mas puseram também a condição de que eu
deveria primeiro preencher os mesmos requisitos exigidos
a qual outro condidato a policial: uma investigação
completa ao caráter exame físico e os mesmos programas
de treinamento. Havia outra condição com a qual
concordei prontamente: em nome da moral, todos os outros
agentes deviam saber quem eu era e o que estava fazendo
ali. Fora disso, em nada eu me distinguiria de qualquer
agente, desde o meu revólver Smith e Wesson calibre 38
até o distintivo e o uniforme.
O maior obstáculo foram as 280 horas de treinamento
estabelecidas por lei. Durante quatro meses (quatro horas
por noite e cinco noites por semana), depois das tarefas
de ensino teórico, eu aprendi a como utilizar uma arma,
como aproximar-me de um edifício na escuridão, como
interrogar suspeitos, investigar acidentes de trânsito e
recolher impressões digitais. Por vezes, à noite,
quando regressava a casa depois de horas de treinamento
de luta de defesa pessoal, com os músculos cansados,
pensava que estava precisando era de um exame de sanidade
mental por ter me metido naquilo. Finalmente, veio a
graduação e, com ela, o que viria a ser a mais
compensadora experiência da minha vida. Patrulhando a
rua. Aao escrever este artigo, já completei mais de 100
rondas comon agente iniciando, e tantas coisas
aconteceram no espaço de seis meses que jamais voltarei
a ser a mesma pessoa. Nunca mais esquecerei também o
primeiro dia que montei guarda defronte à porta da
delegacia de Jacksonville. Sentia-me ao mesmo tempo estúpido
e orgulho no meu novo uniforme azul e com cartucheira de
couro.
A primeira experiência daquilo que eu chamo de minhas
"lições de rua" aconteceu logo de imediato.
Com meu colega de patrulha, fui deslocado para um bar,
onde havia distúrbio, no centro da zona comercial da
cidade. Lá chegando, encontramos um bêbado robusto e
turbulento que, aos gritos, se recusava a sair. tendo
adquirido certa experiência em admoestação correcional,
apressei-me a tomar conta do caso. "Desculpe, amigo"
, disse eu sorridente, "'não quer dar uma
chegadinha aqui fora para bater um papo comigo?" O
homem me encarou esgazeado e incrédulo, com os olhos
raiados de sangue. Cambaleou para mim e me deu um empurrão
no ombro. Antes que eu tivesse tempo de me recuperar,
chocou-se de novo comigo - e dessa vez fazendo saltar da
dragona a corrente que prendia meu apito. Após breve
escaramuça, conseguimos leválo para a radiopatrulha.
Como professor universitário, eu estava habituado a ser
tratado com respeito e deferência e, de certo modo,
presumia que isso iria continuar assim em minhas novas
funções. Agora, porém, estava aprendendo que meu
distintivo e uniforme, longo de me protegerem do
desrespeito, muitas vezes atuavam como um "imã"
atraindo indivíduos que odiavam o que eu representava.
Confuso, olhei para meu colega que apenas sorriu.
Teoria e prática nos dias e semanas seguintes, eu iria
aprender mais coisas. Como professor, sempre procurava
transmitir aos meus alunos a idéia de que era errado
exagerar o exército da autoridade, tomar decisões por
outras pessoas ou nos basearmos em ordens e mandatos para
executar qualquer tarefa. Como agente da polícia, porém,
fui muitas vezes forçado a fazer exatamente isso.
Encontrei indivíduos que confundiam gentileza com
fraqueza - o que se tornava um convite à violência.
também encontrei homens, mulheres e crianças que, com
medo ou em situações de desespero, procuravam auxílio
e conselhos no homem uniformizado.
Cheguei a conclusão de que um abismo entre a forma como
eu, sentado calmamente no meu gabinete com ar
condicionado, conversava com o ladrão ou assaltante a mão
armada, e a maneira como os patrulheiros encontraram
esses homens - quando eles estão violentos, histéricos
ou desesperados.
Esses agressores, que anteriormente me pareciam tão
inocentes, inofensivos e arrependidos depois do crime
cometido, agora, como agente da polícia, eu os encarava
pela primeira vez como uma ameaça a minha segurança
pessoal e à da nossa própria sociedade.
Aprendendo com o medo. Tal como o crime, o medo deixou de
ser um conceito abstrato para mim, e se tornou algo bem
real, que por várias vezes senti: era a estranha impressão
em meu estômago, experimentava ao me aproximar de uma
sensação de boca seca quando, com as lâmpadas azuis
acesas e a sirene do carro ligada, corríamos para
atender a uma perigosa chamada onde poderia haver tiros.
Recordo especialmente uma dramática lição no capítulo
do medo. Num sábado à noite, patrulhava com meu colega
em uma zona de bares mal frequentados e casas de bilhares,
quando vimos um jovem estacionar o carro em fila dupla.
Dirigimo-nos para o local, e eu lhe pedi que arrumasse
devidamente o automóvel, ou então que fosse embora - ao
que ele respondeu inopinadamente com insultos. Ao sairmos
do carro de radiopatrulha e nos aproximarmos do homem, a
multidão exaltada começou a nos rodear. Ele continuava
a nos insultar e se recusando a retiraro carro. Então,
tivemos que prende-lo. Quando o trouxemos para a viatura
da polícia, a turma no cercou completamente. na confusão
que se seguiu, uma mulher histérica me abriu o coldre e
tentou sacar meu revólver.
De súbito, eu estava lutando para salvar a minha vida.
Recordo a sensação de verdadeiro terror que senti ao
premir o botão do armeiro onde se encontravam nossas
armas. Até então, eu sempre tinha defendido a opinião
de que não devia ser permitido, aos policiais o uso de
armas, pelo aspecto "agressivo" que denotavam,
mas as circunstâncias daquele momento fizeram mudar meu
ponto de vista, porque agora era minha vida que estava em
perigo. Senti certo amargor quando, logo na noite
seguinte, voltei a ver já em liberdade o indivíduo que
tinha provocado aquele quase motim - e mais amargurado
fiquei quando ele foi julgado e, confessando-se culpado,
condenaram-no a uma pena leve por "violação da
ordem".
Vítimas silenciosas.
Dentre todas as trágicas vítimas do crime que vi
durante seis meses, uma se destaca. No centro da cidade,
num edifício de apartamentos, vivia um homem idoso que
tinha um cão. Era motorista de ônibus, aposentado.
Encontrava-os quase sempre na mesma esquina, quando me
dirigia para o serviço, e por vezes me acompanhavam
durante alguns quarteirões.
certa noite fomos chamados por causa de um tiroteio numa
rua perto do edifício. Quando chegamos, o velho estava
estendido de costas no meio de uma grande poça de sangue.
Fora atingindo no peito por uma bala e, em agonia, me
sussurou que três adolescentes o tinham interceptado e
lhe pediram dinheiro. Quando viram que tinham tão pouco,
dispararam e o abandonaram na rua. Em breve, comecei a
sentir os efeitos daquela tensão diária a que estava
sujeito. Fiquei doente e cansado de ser ofendido e
atacado por criminosos que depois seriam quase sempre
julgados por juízes benevolentes e por jurados dispostos
a concederem aos delinquentes uma "nova oportunidade".
Como professor de criminologia, eu dispunha do tempo que
queria para tomar decisões difíceis. Como policial, no
entanto, era forçado a fazer escolhas críticas em questão
de segundos (prender ou não prender, perseguir ou não
perseguir), sempre com a incômoda certeza de que outros,
aqueles que tinham tempo para analisar e pensar, estariam
prontos para julgar e condenar aquilo que eu fizera ou
aquilo que não tinha feito.
Como policial, muitas vezes fui forçado a resolver
problemas humanos incomparavelmente mais difíceis do que
aqueles que enfrentara para solucionar assuntos
correcionais ou de sanidade mental: rixas familiares,
neuroses, reações coletivas perigosas de grandes multidões,
criminosos. Até então, estivera afastado de toda espécie
de miséria humana que faz parte do dia-a-dia da vida de
um policial.
Bondade em uniforme. Frequentemente, fiquei espantado com
os sentimentos de humanidade e compaixão que pareciam
caracterizar muitos dos meus colegas agentes da polícia.
Conceitos que eu considerava estereotipados eram, muitas
vezes, desmantidos por atos de bondade: um jovem policial
fazendo respiração boca a boca num imundo mendigo, um
vaterano grisalho levando sacos de doces para as crianças
dos guetos, um agente aferecendo à uma família
abandonada dinheiro que provavelmente não voltaria a
reaver.
Em consequencia de tudo isso, cheguei à humilhante
conclusão de que tinha uma capacidade bastante limitada
para suportar toda a tensão a que estava sujeito.
Recordo em particular, certa noite em que o longo e difícil
turno terminaria com uma perseguição a um carro roubado.
Quando largamos o serviço, eu me sentia cansado e
nervoso. Com meu colega, estava me dirigindo para um
restaurante a fim de comer qualquer coisa, quando ouvimos
o som de vidros se quebrando, proveniente de uma igreja
próxima, vimos dois adolescentes cabeludos fugindo do
local. Cconseguimos interceptá-los e pedi a um deles que
se identificasse. Ele me olhou com desprezo, xingou e me
virou as costas com intenção de se afastar. Não me
lembro do que senti. Só sei que eu agarrei pela camisa,
colei seu nariz bem no meu e rosnei: "Estou falando
com você, seu cretino!"
Então, meu colega me tocou no ombro, e ouvi sua
reconfortante voz me chamando à razão: "Calma,
companheiro!" larguei o adolescente e fiquei em silêncio
durante alguns segundos. Depois, me recordei de uma das
minhas lições, na qual dissera aos alunos: "O
sujeito que não é capaz de manter completo domínio
sobre suas emoções em todas as circunstãncias não
serve para policial".
Desafio Complicado.
Muitas vezes perguntara a mim próprio: "Por que um
homem quer ser policial?" Ninguém está interessado
em dar conselhos a uma família com problemas às três
da madrugada de um Domingo, ou entrar às escuras num
edifício que foi assaltado, ou em presenciar dia após
dia a pobreza, os desequilíbrios mentais, as tragédias
humanas.
O que faz um policial suportar o desrespeito, as restrições
legais, as longas horas de serviço com baixo salário, o
risco de ser assassinado ou ferido?
A única resposta que posso dar é baseada apenas na
minha curta experiência como policial. Todas as coisas
eu voltava para casa com um sentimento de satisfação e
ter contribuído com algo para a sociedade - coisa que
nenhuma outra tarefa me tinha dado até então. |